O WhatsApp e as comunidades de mães

Por Isabel Parolin

...”Esse movimento, tão atual, relatado sobre os diferentes olhares, tanto da família, quanto da escola, propiciam diversos caminhos reflexivos. Escuto as conclusões e queixas, que advém desses grupos e penso na repercussão e nas consequências desses movimentos nas salas de aulas. Essa prática das mães se comunicarem entre si, via WhatsApp, se popularizou em todo o Brasil e nos diferentes segmentos da sociedade. É a primeira coisa que as mães fazem, no início do ano: criar o grupo.

Antes de tudo, quero salientar os inegáveis benefícios que a farta informação oferece à sociedade, além da facilidade de aproximação que a web e suas diferentes manifestações propiciam. Os grupos que funcionam bem não são, neste espaço, objeto de análise. Pretendo partilhar, nesse pequeno artigo, os perigos desses grupos, se não forem administrados de modo responsável e com bom senso. O meu olhar investigativo foi direcionado à dinâmica de sala de aula e à qualidade das relações que lá se estabelecem.

Imagino que o caminho natural seja respondermos: qual o objetivo desses grupos? Entendo que seja socializar, confraternizar, informar, trocar ideias, inteirar-se do que as outras famílias percebem, avaliam e pensam a respeito do andamento da turma e, além disso, aproveitar as inúmeras possibilidades relacionais que a sala de aula oferece a todos os envolvidos. Perfeito... se todos que compõem o grupo tiverem clareza da função social da escola; de como se constrói o aprendiz; do valor da escola para o aluno (notem que escrevi aluno e não filho) e, sobretudo, do importante papel do professor, não somente como gestor da sala de aula, mas como mediador das relações de aprendizagens que acontecem a partir da qualidade dessas mesmas mediações. Os alunos, juntamente com seus professores, constroem a sua dinâmica a partir de contratos estabelecidos entre eles e destinados a eles. Ou seja, a sala de aula é espaço do aluno e a mãe deveria respeitar o grupo no qual o filho está inserido. O grupo é deles, os pais são coadjuvantes.

A interferência que vem de fora do grupo da sala de aula, traz normas para o grupo, sem sequer ser debatidas pelo grupo. Pode desautorizar o professor, enfraquecer o grupo em sua autonomia. Nesse momento surge outra pergunta: e as mães precisam estar inteiradas de tudo que acontece entre os componentes do grupo de sala de aula? O que, muitas vezes acontece, é que esses grupos de Whats funcionam como espiões da sala e da escola e não como grupo de apoio. Claro que os pais podem colaborar: se a escola pedir ajuda, quando perceberem algo extraordinário, mas sempre com e para a equipe da escola e não fora dela.

Na maioria das vezes, os grupos de mães do WhatsApp, querem interferir num universo que não está na competência deles. Fazem julgamentos e avaliações sem, verdadeiramente, se inteirarem da situação.

A Escola é uma instituição que está entre a família e a sociedade. Ela reproduz os valores da sociedade, mas é espaço protegido. As discussões, sem o embasamento da situação e fora do contexto dos fatos e clima emocional, podem virar fofocas sem fundamento, pouco colaborativas e, às vezes, desagregadoras.

Observando as pessoas em seu dia a dia, não consigo imaginar grandes propostas reflexivas a partir de conversas via WhatsApp. O mundo da urgência, da impulsividade, da resposta imediata pode comprometer os rumos da educação das crianças e jovens.

Enfim, para abrir a discussão, deixo o seguinte post: Mães, cuidado para não perderem “a mão” na educação de seus filhos. A escola é importante por ser múltipla e diferente da família. É valioso espaço entre a família e a sociedade e seu filho precisa pertencer, plenamente... e os pais precisam confiar nela, plenamente, também. Não podemos, em nome da boa intenção, despotencializar um espaço tão importante de aprendizagens, com questões ou opiniões que estão desconectadas da pauta da sala de aula.

Isabel Parolin é Pedagoga, Psicopedagoga Clínica e Consultora Institucional de Escolas Públicas e Privadas. Mestre em Psicologia da Educação – PUC-SP e Professora em cursos de Pós-graduação na área da Aprendizagem e relação Família e Escola. Pesquisadora do grupo GAE-PUC-PR. Autora de vários livros e DVDs na área da Educação e Aprendizagem. Palestrante para professores e pais.
Contato: www.isabelparolin.com.br

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